11/09/2024

Décimo Sétimo Domingo após Pentecostes - Próprio 19B

Vitral de Alfred Ernest Child (1875–1939), na Catedral de São Brandão (Loughrea, Condado de Galway, Irlanda), retratando a cura do menino possesso, com a citação de Mc 9.24 em latim: “CREDO, DOMINE: ADJUVA INCREDULITATEM MEAM”.

Isaías 50.4–10
Salmo 116.1-9
Tiago 3.1–12
Marcos 9.14–29

Cristo Jesus nos livra do pecado, da morte e do diabo

Aqueles que ensinam a Palavra de Deus serão “julgados com mais rigor” (Tg 3.1), justamente porque é pela Palavra que obtemos a fé salvadora, ao passo que pela falsa doutrina a nossa fé e vida cristã pode ser destruída. A língua “se gaba de grandes coisas”, seja para o bem ou para o mal (Tg 3.5). No ser humano caído, a língua é um “mal incontido, cheio de veneno mortal” (Tg 3.8). Mas quem refreia a sua língua com a Palavra de Deus, que “não tropeça no falar, é um indivíduo perfeito” (Tg 3.2). Cristo “abriu os ouvidos” à voz de seu Pai, o qual lhe “deu uma língua erudita” para sustentar os cansados com uma “boa palavra” (Is 50.4-5). Obediente ao Pai até a morte, Cristo não foi envergonhado, mas trouxe justiça em sua ressurreição (Is 50.6–9). Por sua fé e fidelidade, Jesus expulsa de nós o “espírito mudo e surdo” (Mc 9.25). Ele tem compaixão de nós e tomando-nos pela mão, nos purifica de todo mal e nos ressuscita da morte para a vida (Mc 9.22-27). 

ORAÇÃO DO DIA:

Senhor Jesus Cristo, nossa ajuda e defesa em todas as necessidades, continua a preservar a tua igreja em segurança, governando-a pela tua bondade e abençoando-a com tua paz; pois tu vives e reinas com o Pai e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

— Comentário traduzido e adaptado de Lectionary Summaries (The Lutheran Church—Missouri Synod). Salvo exceção, todas as citações da Bíblia Sagrada são da versão Nova Almeida Atualizada (NAA), da Sociedade Bíblica do Brasil. A Coleta é do Culto Luterano: lecionários (Editora Concórdia).

07/09/2024

Décimo Sexto Domingo após Pentecostes - Próprio 18B

Cristo cura um homem surdo e gago (vitral da  National Cathedral, Washington DC, EUA)

Isaías 35.4–7a
Salmo 146
Tiago 2.1–10, 14–18
Marcos 7.(24–30) 31–37

Jesus Cristo, nosso misericordioso Senhor e Salvador, faz tudo muito bem

O Senhor proclama o Evangelho “aos desalentados de coração” para confortá-los e encorajá-los com a sua presença. Ele vem com a sua graciosa salvação (Is 35.4). Ele abre “os olhos dos cegos” e “os ouvidos dos surdos”, e solta “a língua dos mudos” para cantarem de alegria (Is 35.5–6). A Palavra proclamada é como “mananciais de água” em “terra seca”, vivificando pessoas de todas as nações (Is 35.7). Tudo o Senhor “tem feito muito bem” através da sua Palavra e do toque da sua mão, para que possamos falar “sem dificuldade” (Mc 7.31–37). Assim  confessamos a verdade de Deus em Cristo para a glória de seu santo nome, e o invocamos em cada tribulação, confiante de que nos ouvirá e responderá. Assim como cada um é chamado a orar e confessar com a sua língua, assim também “ame o seu próximo como a si mesmo” (Tg 2.8). Mostremos nossa “fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória”, amando as pessoas sem parcialidade . Pois Deus “escolheu os que para o mundo são pobres para serem ricos em fé e herdeiros do Reino que ele prometeu aos que o amam” (Tg 2.1–5).

ORAÇÃO DO DIA:

Ó Senhor, que os teus ouvidos misericordiosos estejam abertos às orações dos teus humildes servos e concede que aquilo que eles pedem esteja de acordo com a tua graciosa vontade; através de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

— Comentário traduzido e adaptado de Lectionary Summaries (The Lutheran Church—Missouri Synod). Salvo exceção, todas as citações da Bíblia Sagrada são da versão Nova Almeida Atualizada (NAA), da Sociedade Bíblica do Brasil. A Coleta é do Culto Luterano: lecionários (Editora Concórdia).

30/08/2024

Décimo Quinto Domingo após Pentecostes - Próprio 17B

Antti-Jussi Koponen (Kirkkovuosi - Luterilainen.net)

Deuteronômio 4.1-2, 6-9
Salmo 119.129-136
Efésios 6.10-20
Marcos 7.14-23

Somos purificados e sustentados pela Palavra de Deus

A iniquidade e o mal vêm “de dentro, do coração das pessoas”, e é isso que as contamina (Mc 7.21–23). Portanto, não podemos nos salvar, pois somos pecadores e impuros desde o nosso interior. Mas assim como o Senhor Jesus “considerou puros todos os alimentos” (Mc 7.19), assim também ele nos purifica por meio da sua Palavra, a pregação do arrependimento e do perdão dos pecados. Portanto, “ouça os estatutos e os juízos” do Senhor e “os cumpram, para que vivam” (Dt 4.1). Pois a sua Palavra é justa, e viver de acordo com ela “será a sabedoria e o entendimento de vocês aos olhos dos povos” (Dt 4.6). Guarde esta Palavra e também a ensine “aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos” (Dt 4.9). “Vistam-se com toda a armadura de Deus”, ouvindo e seguindo o que o Senhor tem lhes falado, “para poderem ficar firmes” no dia mau (Ef 6.11-13). Cubram-se com a justiça de Cristo, pela fé no “evangelho da paz”, e usem “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”, confessando a Cristo Jesus e “orem em todo tempo no Espírito” (Ef 6.14-18).

ORAÇÃO DO DIA:

Ó Deus, fonte de tudo que é justo e bom, alimenta em nós todas as virtudes e leva-nos à realização de toda boa intenção, a fim de crescermos em graça e produzirmos os frutos das boas obras; através de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

— Comentário traduzido e adaptado de Lectionary Summaries (The Lutheran Church—Missouri Synod). Salvo exceção, todas as citações da Bíblia Sagrada são da versão Nova Almeida Atualizada (NAA), da Sociedade Bíblica do Brasil. A Coleta é do Culto Luterano: lecionários (Editora Concórdia).

20/08/2024

Lutero: Quem crê também come e bebe Cristo

Lutero dá a comunhão ao eleitor João Frederico I. Ilustração de Gustav König (1808-1869)


 "Jesus respondeu: Em verdade, em verdade lhes digo que, se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em vocês mesmos." (João 6.53)

O Senhor não vai te deixar na incerteza nem deixar sua alma vagar sem rumo, mas ele quer te manter com esse alimento. Você não deve perder de vista a carne e o sangue, mas mantê-los diante de você, e assim a vida eterna será sua...

Pegue todas as boas obras, também as prescritas nos Dez Mandamentos, como obedecer ao governo, honrar seus pais, abster-se de roubar, adulterar e matar – elas são a carne e sangue de Cristo? Não. Portanto, elas são incapazes de dar vida. Consequentemente, Cristo exclui e rejeita todas elas, individual e coletivamente, e insiste na única coisa que concede vida eterna...

Devemos fazer boas obras e levar uma vida piedosa, mas as boas obras nunca contribuirão para alcançar a vida, escapar da morte ou libertar do pecado. A nossa posição deve concordar com a de Cristo: “A menos que comais a carne do Filho do Homem e bebais o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Você não obterá vida de nenhuma outra maneira.”...

Onde quer que seja proclamada a mensagem de que Cristo entregou o seu corpo à morte e derramou o seu sangue pelos nossos pecados, e onde quer que isto é levado a sério, crido e conservado, ali o corpo de Cristo é comido e o seu sangue é bebido. Este é o verdadeiro sentido de comer e beber. Agui, comer é sinônimo de crer. Quem crê também come e bebe Cristo. Estas palavras não precisam de complemento. Não há espaço para boas obras. Seu sangue, derramado na cruz, não é obra minha, eu não fiz isso. Tampouco seu nascimento de Maria ou sua crucificação nas mãos dos judeus são obra minha. Jesus fala do corpo ou da carne dada para a vida do mundo. O fato dele ter morrido por você – isso ele declara que é o verdadeiro alimento.

- Martinho Lutero, no décimo sexto sermão sobre João 6, que pregou no sábado antes do Domingo de Ramos (01/04/1531).

📖 Sermões acerca do Evangelho de João cap. 6 - 1530-1531 (LW 23,133-135)

13/08/2024

Os sacramentos são uma afirmação da criação

 Sacramento do Altar, por Sara Tyson (Artwork from Luther's Small Catechism, CPH)


O uso de substâncias criadas nos sacramentos é um aval da criação. Se a criação fosse tão imperfeita e má como os gnósticos diziam, então deveríamos ter sacramentos sem matéria ou não deveríamos ter sacramentos. Lutero fala da palavra de Deus se juntando a um elemento, um elemento da criação, e tornando-se um sacramento (Catecismo Maior IV, 17). Nos sacramentos, nosso olhar foca primeiramente nas coisas, coisas materiais, coisas pertencentes à criação de Deus, através das quais vemos o sobrenatural. Não olhamos em volta delas, mas através delas, para ver a realidade sobrenatural. O que acontece nos sacramentos, em certo sentido, já aconteceu na encarnação. Em Jesus, vemos Deus. Na água, no pão e no vinho, encontramos Jesus. Tanto na encarnação quanto no sacramento, o criado se torna divino e serve ao único propósito divino da salvação. Tanto em Jesus quanto nos sacramentos, o invisível está oculto no visível, e desta forma a criação é primeiro afirmada e então elevada. Através da palavra de Deus, água, pão e vinho experimentam um tipo de redenção de seu uso subalterno e uma santificação pela qual o Espírito traz pessoas a um relacionamento mais elevado com Deus e confirma isto. Os elementos criados são levados ao seu mais alto potencial e pela palavra de Deus excedem esse potencial sem negar suas limitações. Nos sacramentos, coisas comuns são elevadas a um nível espiritual mais alto, uma dimensão na qual o Espírito Santo está operando. […] Luteranos confessionais são sistematicamente contrários a qualquer substituição das substâncias prescritas, assim como também a qualquer alteração do significado das palavras.

[…]

Os sacramentos são importantes não apenas por causa dos mandamentos de Deus, mas porque derivam sua vida e significado de uma cristologia centrada na encarnação. A encarnação, por sua vez, é uma aprovação total da criação. Na encarnação, Deus toma para si a humanidade, a coroa de sua criação. Jesus é tanto Criador e criatura: “Igual ao Pai segundo a divindade e menor do que o Pai segundo a sua humanidade” [Credo Atanasiano].

[…]

Lutero insiste que Deus trabalha conosco por meio de ordenanças e coisas externas. Deus permanece em uma espécie de “união sacramental” com sua criação, pois mesmo em sua condição pecaminosa, ele continua sendo seu Criador. Historicamente, o demiurgo foi a invenção gnóstica de um Deus que não precisa se contaminar com a criação. Mas agir sacramentalmente significa agir por meio da criação (“meios”) ou criaturas. Com essa definição, a encarnação pode ser entendida sacramentalmente e nossos sacramentos têm dimensões encarnacionais. 

[...]

A fé enxerga através do comer usual um tipo de comer mais profundo, que envolve o cristão na sua existência interior, de modo que o corpo e a alma recebem sustento no mesmo momento e no mesmo ato. Essencial para os luteranos é a ‘manducatio oralis’, uma nutrição do corpo pela boca. A nutrição exterior do corpo envolve a nutrição mais profunda do corpo e da alma com o corpo e sangue de Cristo. 

- Dr. David P. Scaer, professor de Teologia Bíblica e Sistemática no Concordia Theological Seminary de Fort Wayne (EUA)

📖 David P. Scaer. Sacraments as an Affirmation of Creation. In: Concordia Theological Quarterly. v. 57, n. 4. Out. 1993. p. p. 241-264.

09/08/2024

O pão convencional e o pão sacramental

Eucaristia e Jesus Cristo, por Mina Anton

"Trabalhem, não pela comida que se estraga, mas pela que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem dará a vocês; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo." (João 6.27)

Enquanto a água serve a um propósito nas atividades criativas de Deus (Gênesis 1.2), o pão é mencionado pela primeira vez em conexão com a queda do homem em pecado: "Com o suor do seu rosto comerás o pão até que voltes à terra" (Gênesis 3.19). A vida frugal de Gênesis 2, na qual árvores fornecem frutos, é substituída por um sistema complexo que envolve lavrar a terra, lutando contra o crescimento indesejado, cultivar, colher, debulhar, transformar os grãos colhidos em farinha e, finalmente, assar. O pão é um requisito mínimo para a existência humana em um mundo agora condenado à corrupção. Sua produção é acompanhada de suor a cada etapa do processo. Por mais difícil que seja sua produção e por mais simples que seja seu sabor, o pão é básico para a existência do ser humano. Mesmo com as labutas e sofrimentos que acompanham sua produção, o pão não é uma rejeição da criação, apesar de sua escravidão ao pecado; o pão é uma afirmação. A criação, cercada por seus próprios problemas, ainda serve às necessidades dos pecadores. Apesar de seus pecados, por causa da bondade de Deus, os homens têm permissão para viver em antecipação a uma futura redenção. O pão ganha mais significado pelas referências de Jesus a si mesmo como o “pão de Deus”, o “verdadeiro pão do céu” e o “pão da vida”. Isso encontrou espaço na piedade luterana.

O paralelo entre o pão comum e o pão do sacramento é óbvio. O pão convencional e o pão sacramental são, cada um à sua maneira, necessários para o ser humano em seu estado de pecado. O homem físico vive só de pão. O homem destinado a viver com Deus necessita de Jesus Cristo como o pão do céu. Todos trabalham pelo pão que por fim irá perecer (João 6.27). O pão da vida eterna é fornecido mediante o árduo labor de um só homem, Jesus Cristo.

- Dr. David Scaer, professor de Teologia Bíblica e Sistemática no Concordia Theological Seminary de Fort Wayne (EUA)

📖 David P. Scaer. Sacraments as an Affirmation of Creation. In: Concordia Theological Quarterly, Out. 1993. p. 257.


🖼 Eucaristia e Jesus Cristo, por Mina Anton

03/07/2024

A fé que suporta a dor insuportável

A Ressurreição da Filha de Jairo, por Gisele Bauche

A batalha de um pai em oração pela cura de seu filho é uma das experiências mais difíceis que ele pode enfrentar.

Como pai de um filho recentemente diagnosticado com um tumor cerebral, uma das experiências mais insuportáveis a minha vida é imaginar que talvez eu tenha que pregar um sermão fúnebre e enterrar meu filho de doze anos. A dor e a tristeza que acompanham essa preocupação são indescritíveis. No entanto, para alguns, a luta torna-se ainda mais difícil quando precisam recorrer à oração na esperança da cura para um filho. Nesses momentos, um pai tem a sua fé e confiança em Deus são testadas de maneiras que são difíceis de compreender.

C. S. Lewis, um devotado cristão, escreveu extensivamente sobre o tema do sofrimento e da dor, e suas obras fornecem perspectivas sobre a experiência de um pai que está na difícil situação de orar por seu filho. Em particular, a sua compreensão da natureza de Deus e do papel do sofrimento na vida cristã é relevante para a luta de um pai que está orando pela cura do seu filho.

Da mesma forma, na teologia luterana da Reforma, o conceito de sola fide ou “somente a fé” é central para o entendimento cristão de sofrimento, oração e salvação. “Somente a fé” significa que a salvação é um dom da graça que é recebido através da fé em Jesus Cristo, e não através de quaisquer obras ou méritos próprios. Contudo, isto não significa que a vida cristã esteja livre de sofrimento ou luta. Na verdade, o sofrimento é visto como uma parte inevitável da vida do cristão, porque vivemos num mundo caído e estamos sujeitos às consequências do pecado, como o sofrimento, a doença e a morte.

Quando um pai é confrontado com a probabilidade de perder um filho, sua fé é posta à prova. Ele pode se sentir irritado, confuso e sufocado por suas emoções. Ele pode questionar por que Deus permitiria que tal tragédia acontecesse com sua família. Ele pode ter dificuldade para encontrar as palavras para orar ou pode sentir que suas orações não estão sendo ouvidas. Mas nesses momentos, um pai se volta para Deus com fé, confiando em sua promessa de ser um “socorro bem-presente na angústia” (Salmo 46.1).

Em seu livro, “A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação”, Lewis descreve seu conflito com a fé após a morte de sua esposa. Ele escreve: “Não que eu esteja (suponho) correndo o risco de deixar de acreditar em Deus. O perigo real é o de vir a acreditar em coisas tão horríveis sobre Ele. A conclusão a que tenho horror de chegar não é ‘então, apesar de tudo, não existe Deus nenhum’, mas ‘então, é assim que Deus é realmente. Não se iluda’.” (Lewis, A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação, p. 32). Esta passagem fala do medo e da dúvida que podem surgir no coração de um pai que está batalhando por seu filho em oração. Ele pode temer que Deus não esteja ouvindo, ou que Deus esteja punindo ele ou seu filho por algum pecado ou falta.

Contudo, o pai deve lembrar que Deus é um Pai amoroso que cuida intensamente de seus filhos. Ele é encorajado, e até ordenado, a confiar na bondade e na misericórdia de Deus, mesmo quando isso é difícil de entender. Em seu livro, “O Problema do Sofrimento”, Lewis escreve: “Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nosso sofrimento: ele é o seu megafone para despertar um mundo surdo”. (Lewis, O Problema do Sofrimento, p. 106). Esta passagem nos lembra que Deus pode usar o nosso sofrimento para nos aproximar dele e nos revelar o seu amor e misericórdia de novas maneiras.

As declarações de Martinho Lutero sobre o que ele chamou de “teologia da cruz” também são relevantes para a experiência de um pai que batalha em oração pela cura do seu filho. Esta teologia enfatiza a natureza paradoxal da fé cristã: que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza, que a vida vem através da morte e que a verdadeira glória é encontrada na cruz. Assim como o apóstolo Paulo escreveu: “Pois a mensagem da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós que somos salvos é o poder de Deus.” (1 Coríntios 1.18).

A teologia da cruz nos desafia a ver o poder e o amor de Deus em ação no meio do nosso sofrimento e fraqueza. Isso nos lembra que mesmo quando estamos no fundo do poço, Deus ainda está conosco e operando para o nosso bem. Assim como Lutero escreveu em seu Debate de Heidelberg: “Justo não é quem pratica muitas obras, mas quem, sem obra, muito crê em Cristo”. (Lutero, Debate de Heidelberg, Tese 25). Em outras palavras, não são as nossas próprias obras ou méritos que nos salvam, mas sim a nossa fé em Cristo e na sua obra na cruz.

Para o pai que batalha em oração pela cura do filho, a teologia da cruz oferece esperança e conforto. Isso o faz lembrar de que mesmo que suas orações não sejam respondidas da maneira que ele espera, Deus ainda está operando em sua vida e na vida de seu filho tencionando fazer o bem. Também o faz lembrar que a sua fé no amor e no poder de Deus não depende da sinceridade das suas orações, ou de como julga o resultado das suas orações.

Uma das histórias mais famosas da Bíblia sobre a luta de um pai com a fé é a história de Jairo, cuja filha estava morrendo. Jairo era um líder da sinagoga que foi até Jesus e implorou que ele fosse curar sua filha. Jesus concordou em ir com ele, mas no caminho foram interrompidos por uma mulher que sofria de hemorragia há 12 anos. Quando Jesus parou para curá-la, Jairo recebeu a notícia de que sua filha havia morrido.

Naquele momento, Jairo deve ter se sentido arrasado e sem esperança. Ele colocou sua fé em Jesus, mas ainda assim sua filha morreu. Mas Jesus lhe disse: “Não tenha medo; apenas creia, e ela será curada” (Lucas 8.50). Jesus encoraja, e até ordena, Jairo a confiar em seu amor e poder, mesmo quando parecia que toda a esperança estava perdida. E no final, Jesus ressuscitou sua filha dentre os mortos.

Esta história nos lembra que mesmo quando enfrentamos as maiores provações e desafios, ainda podemos colocar a nossa fé em Jesus e confiar no seu amor e poder, um poder que pode ressuscitar os mortos. E talvez nem sempre entendamos por que as coisas acontecem da maneira que acontecem, mas podemos confiar que Deus ainda está no controle, permanecendo fiel às suas promessas para nós e sempre operando para o nosso bem. Como Paulo escreveu em Romanos 8.28: “E sabemos que Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que o amam e que são chamados de acordo com seu propósito”.

Para terminar, a batalha de um pai em oração pela cura de seu filho é uma das experiências mais difíceis que ele pode enfrentar. Desafia a sua fé e confiança em Deus e testa a sua compreensão da fé cristã. Mas através das obras de C. S. Lewis e da teologia de Martinho Lutero, podemos ver que Deus ainda está conosco em meio ao nosso sofrimento e fraqueza. Podemos confiar em seu amor e poder, mesmo quando parece que toda a esperança está perdida. E podemos encontrar conforto e esperança na história de Jairo, que depositou a sua fé em Jesus e viu a sua filha ressuscitar dos mortos. Que todos tenhamos força e fé para confiar na bondade e na soberania de Deus, mesmo nos momentos mais sombrios de nossas vidas.

Donavon Riley, pastor luterano, escritor e colaborador de 1517, Christ Hold Fast, e LOGIA.

Traduzido do original: Faith that Bears Unbearable Grief