04/09/2013

Breve Forma dos Dez Mandamentos

Dez Mandamentos - Sara Tyson (Luther's Small Catechism, CPH)

Breve Forma dos Dez Mandamentos

Martinho Lutero

Prefácio

     Não foi sem uma disposição especial de Deus que foi dada ao cristão simples, que não consegue ler a Escritura, a ordem de aprender e conhecer os Dez Mandamentos, o Credo e o Pai-Nosso. Na verdade, nessas três partes está contido, básica e sobejamente, tudo o que consta na Escritura e o que pode ser pregado, bem como tudo o que o cristão necessita saber. E o que ele precisa para a salvação está redigido com tal brevidade e facilidade que ninguém pode se queixar nem se desculpar de que é demais ou muito difícil para guardar. Pois é necessário uma pessoa saber três coisas para poder ser salva: a primeira, que ela saiba o que deve fazer e deixar de fazer. A segunda, que, vendo-se incapaz de fazê-lo e de deixar de fazê-lo por próprias forças, saiba de onde tirar, procurar e encontrar [meios] para poder fazê-lo e deixar de fazê-lo. A terceira, que saiba como procurá-lo e buscá-lo. Como a um doente, é-lhe necessário saber, primeiro, qual é a sua doença, o que pode ou não pode fazer ou deixar de fazer. Em seguida, é necessário que saiba onde se encontra o remédio que lhe ajude a fazê-lo e deixar de fazê-lo, como uma pessoa sadia. Em terceiro lugar, deve desejá-lo, procurar e buscar ou mandar trazê-lo. Dessa forma os mandamentos ensinam a pessoa a reconhecer a sua enfermidade, fazendo-a ver e perceber o que pode fazer ou não, o que pode deixar de fazer ou não, e a reconhecer-se como pecadora e pessoa má. Em seguida, o Credo lhe mostra e ensina onde deve encontrar o medicamento, a graça, que lhe ajude a tornar-se piedosa, para guardar os mandamentos. Indica-lhe Deus e a misericórdia, demonstrada e oferecida em Cristo. E, por fim, o Pai-Nosso lhe ensina como deve desejar a graça, como buscá-la e aproximá-la de si, a saber, por meio da oração regular, humilde e consoladora. Então ela lhe é dada, e desse modo a pessoa é salva através do cumprimento dos mandamentos de Deus.
     Estas são as três coisas em toda a Escritura. Por isso começamos a aprender primeiro com os mandamentos e a reconhecer o nosso pecado, a nossa maldade, isto é, a nossa doença espiritual, pela qual não fazemos nem deixamos de fazer aquilo que deveríamos.

A primeira tábua de Moisés, a da direita,

compreende os três primeiros mandamentos, nos quais se ensina à pessoa o que precisa e deve fazer e deixar de fazer em relação a Deus, isto é, como deve portar-se frente a Deus.
     O primeiro mandamento ensina como a pessoa deve portar-se frente a Deus interiormente, no coração, isto é, do que a toda hora deve lembrar-se, o que guardar e o que observar, a saber, que espere tudo de bom dele, como de um pai e bom amigo, com toda a fidelidade, fé e amor, com temor constante para não ofendê-lo, como uma criança em relação ao seu pai. Pois a natureza ensina que há um Deus que dá todas as coisas boas e ajuda em todos os males, como indicam os ídolos entre os pagãos. E diz assim:

Não terás outros deuses.

     O segundo mandamento ensina como a pessoa deve portar-se frente a Deus exteriormente, em palavras perante as pessoas, ou também interiormente perante si mesma, a saber, que honre o nome de Deus, pois ninguém consegue mostrar Deus, nem para si mesmo nem para as pessoas, pela natureza divina, mas com o seu nome, e diz assim:

Não tomaras em vão o nome de teu Deus.

     O terceiro mandamento ensina como a pessoa deve portar-se frente a Deus exteriormente em obras, isto é, em serviços de Deus, e diz assim:

Santificarás o dia de descanso.

     Portanto, esses três mandamentos ensinam à pessoa como deve agir com Deus em pensamentos, palavras e ações, quer dizer, em toda a sua vida.


A segunda tábua de Moisés, a da esquerda,

contém os seguintes sete mandamentos, nos quais é ensinado à pessoa o que lhe compete fazer e deixar de fazer em relação às pessoas e ao seu próximo.
     O primeiro ensina como a gente deve portar-se diante de todas as autoridades, que ocupam o lugar de Deus. Por isso vem antes dos demais, após os três primeiros, que se referem a Deus mesmo. [Entre elas] estão o pai e a mãe, as autoridades eclesiásticas e seculares, etc. E ele diz assim:

Honrarás o teu pai e a tua mãe.

    O segundo ensina como a gente deve portar-se frente aos seus semelhantes ou frente ao seu próximo, em função da sua pessoa em si, não a ofendendo, mas, quando tiver necessidade, a favorecendo e auxiliando, e diz assim:

Não matarás.

     O terceiro ensina como se portar frente ao maior bem que o próximo tem alem de sua própria pessoa, qual seja, o seu cônjuge matrimonial, filho ou antigo, não os fazendo passar vergonha, mas os mantendo em honra, tanto quando for possível a cada um, e diz assim:

Não adulterarás.

    O quarto ensina como se portar frente aos bens temporais do próximo, não os levando nem os impedindo, mas os fomentando, e diz assim:

Não furtarás.

     O quinto ensina como se portar frente à honra temporal do próximo e à sua boa fama, não a diminuindo, mas engrandecendo, protegendo e resguardando, e diz assim:

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

     Portanto, é proibido prejudicar o próximo em qualquer bem e é ordenado prestar-lhe serviço. Se agora considerarmos a lei natural, veremos quão justos e corretos são todos esses mandamentos, pois aqui nada se manda obedecer frente a Deus e ao próximo que qualquer um não gostaria de ver obedecido se fosse Deus e estivesse no lugar de Deus e de seu próximo.

     Os dois últimos mandamentos ensinam quão má é a natureza e quão puros de todas as cobiças da carne e dos bens devemos ser. Mas nisso haverá luta e trabalho permanentes, enquanto aqui vivermos. Dizem assim:


Não cobiçarás a casa do teu próximo. 
Não cobiçarás a sua mulher, servo, serva, gado ou o que lhe pertence.


Breve conclusão dos Dez Mandamentos

     Cristo mesmo diz:
     “O que quereis que as pessoas vos façam, isso fazei-lhes vós também; essa é toda a lei e todos os profetas.” (Mt 7.12.) Pois ninguém quer sofrer ingratidão pela sua boa ação ou entregar a sua boa fama a um outro. Ninguém quer que o tratem com arrogância. Ninguém quer sofrer desobediência, ira, adultério de sua mulher, roubo de seus bens, mentiras, logros, difamações, e sim receber do seu próximo amor e amizade, gratidão e auxílio, verdade e fidelidade. Ora, é isso tudo que os Dez Mandamentos ordenam.

-- Bem-aventurado Martinho Lutero, Breve Forma dos Dez Mandamentos (OSel 2:174-177)

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